O fim do brechó barato existe mesmo ou é só em São Paulo?
Estava lendo ontem ,sobre os preços exorbitantes que estão cobrando nos brechós ,aqui em Porto Alegre é moda circular e sustentável e com precinhosincríveis !
Se você entrou em um brechó em São Paulo nos últimos meses e levou um susto com o preço, você não está sozinha.
De uns tempos pra cá, virou comum ver uma jaqueta de segunda mão por R$ 400, uma calça por R$ 250. Mais caro que roupa nova em fast fashion. E aí fica a pergunta: o brechó deixou de ser popular?
Como dona de brechó aqui em Porto Alegre, eu vejo essa história acontecendo de perto, mas com outros olhos.
O que aconteceu em São Paulo tem nome: gentrificação.
Muitos brechós novos abriram nos bairros mais caros da cidade, com decoração impecável, arara dourada, luz perfeita para foto. Só que manter uma loja nesse padrão, num bairro nobre, custa muito. E esse custo vai pra etiqueta.
Outro ponto é a mudança de quem compra. Hoje quem mais procura brechó é a galera mais jovem, que não quer mais comprar em fast fashion a qualquer custo. Quer consumir consciente, quer peça exclusiva, com história. E está disposta a pagar mais por isso. O mercado entendeu isso e começou a vender não mais a "roupa usada", mas a "peça vintage sustentável e exclusiva". Quando você troca o nome, o preço sobe junto.
E tem a nossa parte, que ninguém vê: curadoria. Quem tem brechó sabe. Não é só pegar roupa e pendurar. É garimpar, selecionar uma a uma, lavar, higienizar, consertar botão, tirar bolinha, passar, fotografar, cadastrar. São horas de trabalho para aquela peça chegar linda pra você. Esse tempo precisa ser valorizado sim.
Só que existe uma linha muito fina entre valorizar o trabalho e elitizar.
O brechó nasceu para ser democrático. Foi por muito tempo o lugar onde quem tinha pouco dinheiro conseguia se vestir bem, com dignidade. Se a gente transforma a moda circular em um clube só para quem pode pagar pela estética sustentável, a gente perde o propósito.
Aqui no Brechó da Mary eu tento equilibrar isso todos os dias. Quero que a peça tenha um preço justo para quem compra, mas que também seja justo com o meu trabalho e com quem me fornece. Acredito que dá pra fazer moda circular acessível, sem precisar cobrar o preço do metro quadrado dos Jardins.
O brechó barato não acabou. Ele só mudou de endereço. Ainda existe nos bazares de bairro, nas feiras, nos brechós de garagem, nos garimpos online entre pessoas. E existe aqui também.
Você tem percebido essa diferença de preço por aí? Me conta nos comentários o que você acha justo pagar em uma peça de brechó.
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